Pacaembu, 1950
Um jogo de fase final de Copa do Mundo que meu avô metalúrgico pagou para ver
Meu avô Francisco Orozco (1915-1987) contava que foi ao Pacaembu com seus irmãos para assistir Uruguai 2 x 2 Espanha pelo Turno Final da Copa do Mundo de 1950.
Ele e os irmãos todos nascidos em Sevilha e vindos para o Brasil na infância.
Em 2026, o que mais me impressiona é que meu avô, um metalúrgico pobre com uma filha (minha mãe; alguns anos depois, viria minha tia) para criar, tenha conseguido comprar um ingresso para um jogo de fase decisiva de uma Copa do Mundo.
Meu avô estava acostumado ao Pacaembu. Viu inúmeros jogos do Corinthians ali. Garantiu pra mim que Luizinho (1930-1998), o camisa 8 corintiano que marcou os anos 1950, foi melhor que Pelé (1940-2022).
Eu entendo meu corintianismo por causa desses detalhes insanos.
Eu lembrei dessa presença de meu avô num jogo de Copa do Mundo porque estava pensando em como eu choro por dentro cada vez que me vem à cabeça no que transformaram o Pacaembu dito privatizado nos últimos anos.
O Pacaembu em que vi minha primeira partida de futebol in loco em 1975 (Corinthians 4 x 1 Botafogo de Ribeirão Preto, gol do Sócrates [1954-2011] para o Botafogo).
Em que vi vários outros jogos ordinários do Corinthians, alguns felizmente junto do meu avô Francisco.
Em que vi um show dos Rolling Stones pela primeira vez em 1995. Em que o Corinthians ganhou sua primeira Libertadores em 2012 (essa eu vi pela TV, fazer o quê)...
Mas a ideia de um operário humilde poder comprar um ingresso para um jogo de fase final de Copa do Mundo me fala muito alto.
É a essência do futebol. Ao alcance de qualquer um. Alguns poucos dinheiros possibilitaram ver uma partida de nível mundial.
Eu sei que os jogos da atual Copa do Mundo vêm processando a magia do torneio e nos dando a ilusão de que o encanto está intacto.
Não estou excluído dessa ilusão. Eu adoro Copa do Mundo. E acho a final de 2022 (Argentina 3 x 3 França) um dos maiores jogos de futebol da história.
Mas eu desejaria um mundo em que o metalúrgico Francisco Orozco (o Paco ou o Paquinho ou o Seu Chico, dependendo de quem se dirigia a ele) fosse capaz de pagar por um ingresso de um jogo de Copa do Mundo em 2026.
A Fifa destruiu uma certa essência da Copa com seu gigantismo ganancioso.
(E, sim, a CBF destruiu uma certa essência da Seleção Brasileira com sua soberba gananciosa)
Apesar destes meus muxoxos, dedico tudo que posso ver desta Copa ao metalúrgico Francisco Orozco presente ao Pacaembu numa tarde de 1950.




Nos anos 1990 eu fui à Mesbla comprar ingresso para show dos Stones no Pacaembu, uma semana antes do evento. Até hoje não entendo como o meu dinheiro dava para comprar ingresso naquela época e como o show não estava esgotado uns dez meses antes, como acontece hoje. É como eu digo, o mundo já foi melhor.
Destruíram o melhor estádio pra assistir futebol de são Paulo. Uma pena.